Dr. Pedro Paulo Filho

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Biografia Crônicas Livros Poesias Galeria Contato
Dr. Pedro Paulo Filho
A capital de Campos do Jordão
Campos do Jordão não é uma cidade qualquer
O João que fez nosso hino
"Nunca more de fronte a uma boite"
Falar é fácil, difícil é ouvir.
Quem foi esse Juó Bananeri?
A mãe morta salvou o filho
Ave Maria e Pai Nosso ultrajantes
Parece incrível mas é verdade
Festa Nacional da Maçã
É Proibido estacionar em abernéssia
O primeiro que entrar, morre!
Turista não respeita faixa
Homem não presta
A saudade é o perfume da ausência
Nenê foi para o céu
Jordanenses na 2ª Guerra Mundial
É gente humilde. Que vontade de chorar!
Suíça brasileira?
Igreja de São Benedito
Abaixe as calças, por favor!
O silêncio que fala
Ninguem acreditou no Hotel Escola Senac
Oswaldo silqueira é o cara!
Abaixe as calças, por favor!
A criança que virou serpente
O Terrorista Chinês
O esquecido Jagobo Pan
A Moça que se chamava Miguel
Luiz Pereira Moysés -
Grande pintor Jordanense
Mulher baixinha é fogo na roupa!
Só porque sou preto, né?
Quem foi esse tal de Macedo Soares?
Um Jordanense que era Escocês
Minha adorável sogra
A gente era feliz e não sabia
Somos Cidade de Chegar e de Voltar
A roleta Russa
Nem padre escapa da maledicência
Tempo bom que não volta mais
Ele era o outro
Negro! Bêbado! Ladrão!
Quando conto, tem gente que não acredita
Negro! Bêbado! Ladrão!
Mistérios da Volta Fria
Cala a boca Tiziu
Nelson Rodrigues em
Campos do Jordão
Ó Iracema, eu nunca mais te vi!
O frio esquenta a economia
Maria Miné
Cadê a nossa Rádio Emissora?
O Mandioca Pão
A Tragédia de Vila Albertina,
nunca mais!
As pesquisas não mentem jamais
A gruta dos crioulos
Mea culpa, mea culpa,
mea máxima culpa
Acontece cada uma nesse
senadinho ...
Gente humilde, gente heróica!
Será que o Dr. Reid está feliz?
Golpe de Mestre
Lembranças da Lagoinha
De amor também se morre
De batom e salto alto
Os Modernistas em Campos
do Jordão
T. C. C. A luta e a vitória
A van dos boêmios
Péssimo de oratória
Ó morte! Qual a tua vitória?
A Côlonia Japonesa e a agricultura
em Campos do Jordão
Rir ou Chorar?
O Medium e a Justiça
A Violinha
Prece a Nossa Senhora
dos Desgraçados
Shindô, Remmei
Olhos, Olhar, Olhares.
O Inferno Está Pertinho Do Céu
Aos Sepultados Vivos
O Cruzeiro na entrada da cidade
Meu Deus! O Mundo dá voltas ...
Sonho Realidade
O Menino e o Passarinho
João Leite Está na Ceú
Portal de Campos do Jordão
Onde está Maugeri Neto?
Não é proibido sonhar
O paraíso que acabou
Karuizawa "Cidade co-irmã"
I Festa Nacional da Maçã
Ruas de Chocolate
As vezes até Deus duvida!
A gente era feliz e não sabia
Saudades, muitas Saudades
Fantasma do Conventinho
Padre Nosso Comunista
Morte na estação de cura
Tem cada uma que parece duas
É melhor voltar ao crime
Estória de Pescador
Boatos morrem nos cemitérios
Desculpem o desabafo
Lamartine Babo na Montanha
Catinga do Povo
Uma gafe espetacular
Uma tela de Camargo Freire
Eu te amo muito, muito, muito
O Poeta e o palavrão
O crime já está prescrito
Discos Voadores na Montanha
A vigarice vem de longe,
muito longe
Cruz Credo!
No tempo do Cine Glória
Lobisomem do Rancho Alegre
Ferrovia que é patrimônio histórico
O Sacristão Analfabeto
O Cavanhaque e o Bigode
Vingança dos Jordanenses
Estância de Repouso
e de Romantismo?
Lenda dos Moedas de Ouro
Maternidade só para mulheres...
A palavra-meio e a palavra-fim
O Prefeito da Noite
O Anjo da morte na Montanha
Mais uma lenda de
Campos do Jordão
As nascentes mais altas
do Rio da Prata
A Cara de Campos do Jordão
NELSON RODRIGUES EM CAMPOS DO JORDÃO

Queria falar um pouco sobre Nelson Rodrigues em Campos do Jordão. Ele escreveu 17 peças teatrais, 10 livros, 2 contos, 4 livros de crônicas, 3 novelas de TV e 20 filmes.

Não se sabe dizer se ele foi gênio ou louco, tarado ou santo, reacionário ou revolucionário.

Ficou tuberculoso, perdeu o irmão Roberto, assassinado por Silvia Seraphim, o irmão Joffre morreu de tuberculose, o filho Nelsinho foi preso e torturado durante o regime militar, o pai Mario morreu de desgosto por achar que ele deveria ter sido vítima do assassinato e não o filho Roberto e em 1967 perdeu o irmão Paulo Rodrigues e toda sua família no desabamento do prédio onde moravam.

Numa relação extraconjugal teve a filha Daniela que nascera cega.

Aconteceu com Nelson Rodrigues o título de seus próprios escritos: “A Vida Como Ela É”.

O mais polêmico teatrólogo brasileiro e um dos mais controvertidos jornalistas da imprensa nacional, Nelson Rodrigues, buscou o clima jordanense e o tratamento clínico para a sua tuberculose.

Relatou Ruy Castro na maiúscula biografia do autor de “Vestido de Noiva”, que Nelson Rodrigues, por volta de 1934, muito magro, começou com uma tosse seca e uma febre baixa, mas persistente, que o acometia todas as tardes.

Tinha 21 anos quando foi confirmada a tuberculose pelo doutor Isaac Brown, no Rio de Janeiro.

“A solução estava na popular paródia de um anúncio de xarope: “Tosse, bronquite, rouquidão? Quando se pensava que vinha o nome do “Bromil”, o outro fulminava: Campos do Jordão.”

Pôr intermédio do médico Aloisio de Paula, foi possível obter uma vaga gratuita em sanatório jordanense, o S-1 - da Associação dos Sanatórios Populares de Campos do Jordão.

“E, então, em abril de 1934, Nelson tomou o trem para Pindamonhangaba, no interior de São Paulo. Lá, fez baldeação no bondinho e foi para onde iam as pessoas no seu estado: Campos do Jordão, a 360 quilômetros de sua casa, na rua Visconde de Pirajá e a 1.628 metros acima do Oceano Atlântico. Sem saber se voltaria.

Tivera de pedir licença no “O Globo”, mas sua família não poderia abrir mão de seu salário integral.”

Roberto Marinho foi solidário: “Mas, claro, Nelson continua recebendo do mesmo jeito!”

Ruy Castro contou que o sanatório era uma casa grande de madeira, no alto de uma colina, cercada de neblina, eucaliptos e borboletas.

Uma espécie de “Montanha Mágica”de Thomas Mann.

O jovem doente foi recebido pelo médico Herminio Araújo e a vaga que lhe conseguiram era de indigente, e por isso, tinha que varrer o chão, trocar os lençóis e servir a mesa, o que nunca fizera na vida.

Para esquivar-se de tais encargos, decidiu pagar 150 mil réis por mês.

“Mesmo para os pagantes, o “Sanatorinhos” não era o Toriba, o hotel chique de Campos do Jordão. A cama de Nelson ficava debaixo de uma janela, que permanecia aberta sob um luar que ele nem sabia que existia.

Mas ficava numa enfermaria, ao lado de outras camas com outros homens prostrados.

A rotina diária era café da manhã, das sete às nove horas, almoço às 11.30 horas, repouso de uma às três, jantar às seis, silêncio às nove.

Tudo era respeitado menos o silêncio.

Depois da febre coletiva (que atacava à tarde, com uma pontualidade e persistência irritantes), havia a cacofonia das tosses. Elas começavam com o cair da noite e atingiam seu apogeu de madrugada, junto com o canto dos galos.

Às vezes, alguém tossia demais, era levado a exame e não reaparecia pela manhã.

Acontecia também de Nelson conversar com alguém de manhã, o sujeito sumir durante o dia e já não aparecer no dia seguinte.

Os caixões saíam sempre à noite, não importava a hora que se tivesse morrido. Não porque o “Sanatorinhos” ficasse esperando que os parentes viessem se despedir do morto, mas para não deprimir mais ainda os outros doentes.

Visitas eram artigos de luxo e o normal era que as pessoas fossem internadas ali e esquecidas pelas famílias. (Ao sair, as raras visitas passavam álcool no corpo).

O próprio Nelson, nos pelo menos quatorze meses que passou daquela vez no “Sanatorinhos”, de abril de 1934 a junho de 1935, só teve duas visitas e ambas ao mesmo tempo: Milton e Agostinho. Suas irmãs nunca puderam ir - não havia dinheiro.”

Sexo, segundo contou Ruy Castro, era pensamento constante da maioria, e freqüentemente, podia-se ver três ou quatro ereções, sob as calças do pijama, o que se atribuía a febre moderada e a abstinência a que os doentes estavam submetidos, por longos meses, e quando não, por anos.

Qualquer movimentação feminina vista das janelas provocava uma “maratona de masturbações.”

Escreveu que estava há um mês em “Sanatorinhos”, “quando apareceu uma égua em nosso mato. Lindo, lindo animal. E como era uma figura plástica, elástica, ornamental, e de nariz fino, e crinas de flama, alguém disse: - Cavalo árabe!

Até que numa tarde aparece no mesmo terreno, de “Sanatorinhos”, um cavalo. Era o casal. Por certo, o recém- chegado não era bonito, nem elástico, nem lustroso como a companheira. Mais vira-lata do que árabe. Tinha um ruço manchado e as orelhas pendiam humilhadíssimas.

Já tocara o repouso absoluto. Duas e tanto da tarde. E todos os doentes, inclusive os febris, apinhavam as janelas. Eu fui um dos que subiram e espiaram a cena. O cavalo rondava, grave e triste, a companheira. Entre os dois uma distancia de dez metros.

Os doentes esperaram cinco, dez, quinze minutos.

Um deles grita: “Vai, seu bobo!”

O outro estrebucha: “Sua besta!”

Houve um momento em que o animal se afastou e rompeu um desespero no “Sanatorinhos”.

Ele está longe, olhando para o fundo da tarde.

Até que, de repente, volta. O sanatório em peso deixa de respirar. Ardiam em todas as janelas as fomes do sexo. Ninguém dizia nada.

Um internado que ia morrer dois dias depois, agarrava-se ao vidro na dispnéia pré-agônica.

Não sei quanto tempo passamos ali, com as sacadas debruçadas sobre aquele amor.

Depois, ainda olhamos o cavalo que se retirava, levando a tristeza grave da posse falhada. Os doentes saíram da janela como que derrotados.

Só o baiano da toracoplastia teve uma prodigiosa crise de choro. Soluçava: “Vou descer pra Salvador. Vou matar minha mulher!”

Ninguém disse nada. O sonho subia de nossas entranhas como uma golfada.

Nelson Rodrigues recebia muitos suéteres coloridos de sua primeira esposa, Helena, porque a temperatura caía a cinco abaixo de zero e daí o uso de luvas, gorros, cachecóis e outros agasalhos.

Deixara a barba crescer, negra e cerrada.

O costume era dormir com as janelas abertas para a ventilação e os banhos também eram frios.

Alguns fumavam porque não era proibido, entretanto, grande parte da alimentação era à base de feijão: caldos, sopas e feijão com ovo cru.

Os doentes mais graves submetiam-se ao pneumotórax, que se constituía na infiltração de ar, por uma agulha que penetrava entre os vãos da costela, a fim de injetar ar entre o pulmão e a pleura.

Outros enfrentavam a terrível toracoplastia que era afastamento ou extração cirúrgica de uma ou mais costelas.

Nelson Rodrigues fez inúmeros pneumotórax e assistiu muitos de seus colegas sofrerem a temida hemoptise - a expulsão de sangue pela boca.

Em 1935, um dos doentes teve a idéia de encenar um teatrinho no sanatório, e logo se lembraram do jornalista de “O Globo” para escrevê-la, que aceitou a tarefa.

Um e outro doente se travestiu de mulher e logo às primeiras cenas, a platéia composta de doentes em bom e mau estado, explodiu em gargalhadas.

“Texto e título desse “sketch” se perderam, mas foi ele, e não “A Mulher sem Pecado”, cinco anos depois, a primeira experiência, digamos, dramática de Nelson Rodrigues.”

Curou-se da tuberculose em meados de 1935, despedindo-se de seus companheiros: “Os enfermeiros incendiaram seu colchão, como era comum com os que saíam.”

Voltou gordo e saudável, contando estórias trágicas do “Sanatorinhos” por muito tempo.

Não podia Nelson prever que teria pelos menos cinco recaídas, mais tarde, sendo obrigado a retornar a “Sanatorinhos” outras vezes, onde submeteu-se a pneumotórax e a tratamento com estreptomicina em 1949.

Nelson Rodrigues perdera o irmão Joffre, em Correias, vítima da tuberculose, e deprimido, considerava-se culpado como tendo sido o transmissor da doença.

O bacilo de Koch instalou-se novamente em seu organismo e em fevereiro de 1937, retornou ao “Sanatorinhos” em Campos do Jordão.

O tratamento durou menos tempo e no segundo semestre daquele ano, já obtinha alta médica, retornando ao Rio de Janeiro.

Entretanto, o destino frustrou o seu casamento com Elza, marcado para maio de 1939, porque em março desse ano sofreu nova recaída, subindo novamente a “Montanha Magnífica”.

Desta vez, lembrou Ruy Castro, “levou com ele para o “Sanatorinhos” sua máquina que escrevia cartas quase diárias a Elza, todas terminando com frases como “Beijo-a nos olhos, Beijo-a na alma, Beijo-a na carne”, “Te amo hoje e até o fim do mundo” ou - não perca esta “Que o chão se abra em rosas à tua passagem”(...) Os quatro meses que Nelson passou daquela vez no “Sanatorinhos” foram sempre bancados por Roberto Marinho e havia sempre a esperança de que fosse a última. Mesmo porque, além da tuberculose, havia outro fantasma para Nelson em Campos do Jordão - o ciúme.”

Já consagrado pela critica nacional com o sucesso da peça “Vestido de Noiva” em 1944, lançado em distribuição nacional por “Edições o Cruzeiro”em 1945, Nelson Rodrigues saboreava a boa receptividade das peças “Meu Destino é Pecar” e “Escravas do Amor”.

Novamente, sofreu recaída da tuberculose, já agora casado.

O médico Genesio Pitanga aconselhou: “A solução é Campos do Jordão ou esperar”.

Em março de 1945, Nelson Rodrigues retornou a Campos do Jordão, desta vez, acompanhado da esposa Elza, grávida de seis meses, da sogra Concetta e do filho Joffre.

Contou Ruy Castro: “Em Campos do Jordão, Nelson marchou sozinho para o “Sanatorinhos”, e a mulher, a sogra e o filho instalaram-se numa pensão em Abernessia, na entrada da cidade. Só podiam visitá-lo duas vezes por semana.

Nelson e Elza se escreviam diariamente.

Algumas semanas depois concluíram que aquilo não fazia sentido, a família voltou para o Rio, deixando Nelson na internação. Com mais algumas semanas, ele próprio, já melhorou, saiu do “Sanatorinhos” e foi para a pensão em Abernessia.

O simples ar puro da cidade completará o tratamento.

Nelson não podia deixar de notar uma característica de Campos do Jordão: a quantidade de casais de meia idade que viviam lá em estado marital - algo inusitado para o Brasil da época.

Mas a explicação estava à vista: tratavam-se de pessoas que tinham sido internadas nos sanatórios e “esquecidas” por seus maridos e mulheres.

É o caso do cantor de tango que veio de Santos para a montanha. Relatou Nelson Rodrigues: “Cantor de tango, mas brasileiro de Jabuticabal. Tinha uma cavidade em um dos pulmões e fazia pneumatorax. Ganhou uma cama de canto na minha enfermaria. No meio do tratamento ganhou pleuris. Mais um pouco e a água virou pus.

Aí começou o martírio. Era queimado, ao mesmo tempo, pelo frio e pela febre, 39, 40, 39, 40. Tinha uma mulher e uma filhinha e não recebia carta de ninguém. Repetia, dia e noite: “Ainda não morri e já me esqueceram!” Falava como se o tuberculoso fosse o mais traído dos seres. Uma noite, ouve-se o grito: “Sangue, sangue!”. Alguém acende rapidamente a luz. Era hemoptise. Veio o médico de plantão. Ainda me lembro do olho enorme do medo.

Depois soube que ele cantava tango em cabarés ordinaríssimos do cais, mas não tinha salário, punha um prato ou um pires no chão como um cego e os criolões da estiva, marinheiros loucos e as prostitutas bêbadas, pingavam lá sua moeda.

E súbito, começou a odiar a mulher: “Cachorra, cachorra!”

Xingou-a de todos os nomes. Era terrível ver a sua agonia pornográfica. Quiseram leva-lo para o isolamento. Reagiu babando sangue: “Morro aqui, aqui!” Queria morrer no meio dos outros, olhando alguém. E então foi deixado em paz. Hora antes de morrer, deixou de odiar a esposa.

Bem me lembro da sua última manhã. Cerca de nove, dez horas, entra a crioula baiana, Dona Maria, que todas as manhãs varria a enfermaria. Os outros doentes estavam na varanda tomando sol nas pernas. E na enfermaria, o moribundo levantava-se do fundo de sua agonia. Via a preta, magra e velha varrendo, mudando os lençóis e as fronhas. Saltou da cama e veio, cambaleante, atropelar a criada. Esta pula para trás. As canela finas e espectrais não sustentavam mais o moribundo. Quando os outros entraram, viram no chão a ossada aluida. Era, sim, apenas uma ossada com uma pele diáfana por cima.

A baiana apanhara a vassoura, as mãos ambas, e ia fender-lhe o crânio. Os outros carregaram o homem de Jabuticabal, enquanto a arrumadeira esganiçava palavrões. E ali morreu o cantor, agarrado ao seu último desejo”.

O tuberculoso era o sujeito mais traído de todos os seres. Na minha segunda ou terceira noite de sanatório, conversamos sobre o nosso destino feio. Lembro-me de um baiano, (comerciante de jóias, não sei se de jóias ou espelhos). Fizera há pouco toracoplastia, a monstruosa operação. Sem várias costelas, ele adernava para um lado. E dizia numa fúria de mutilado: “O sujeito aqui recebe carta na primeira semana, menos na segunda, menos ainda na terceira e nada a partir da quarta”. Agora me lembro: - Chamava-se Lemos. Falava muito nas próprias costelas: “O sujeito que faz essa operação tem que amar vestido”. E havia por trás das suas palavras uma vaidade absurda do ombro pendido e da cicatriz. Levantava a camisa e mostrava o corte, radiante. Suspirava: “Vou ficar aqui, morrer aqui. Se descer, mato a minha mulher. Mato” Estava casado, continuava casado. E há dez anos não recebia uma carta, um bilhete, um recado, nem da mulher, nem dos filhos. Lembro-me, que certa vez no almoço, comendo cozido, afirmou com satisfação terrível: “Eu estou morto, eu morri!”

Os doentes ao descobrirem que haviam sobrevivido, juntavam-se para constituir novas famílias e nunca mais voltavam para sua cidades.”

Uma carta inédita de Nelson Rodrigues à sua futura mulher Elza veio à luz na imprensa paulista, datada em 12 de junho de 1939.

Na missiva, o teatrólogo lamenta profundamente a perda do Irmão Joffre, a quem mais se afeiçoara dentre todos os irmãos, considerando-o o mais promissor de todos os Rodrigues.

Atlético, bem falante, namorador, aos 21 anos, Joffre Rodrigues já era editor de esportes do “Diário Carioca”e repórter de “O Globo”.

Escrevia: “Ele foi, como já te disse, o maior amigo; eu o queria com um sentimento que se transformou em adoração pura. Joffre merece de mim o culto de uma saudade que não fenecerá.”

Depois, observava que, “quando cheguei aqui em Campos do Jordão, conversei muito com uma pessoa ( uma velha senhora, diretora de um sanatório daqui) sobre o amor, ou melhor, sobre o amor na vida de quem já foi doente do pulmão. Eu contei-lhe que amava uma menina carioca, com um desses sentimentos vivos, palpitantes, irresistíveis, que só florescem uma única vez num destino humano.

Então, ela me disse que, na sua opinião, um doente curado só deveria casar-se com uma mulher que tivesse amargado a mesma doença, porque - argumentava essa senhora - os esposos se uniriam melhor pela experiência de um martírio comum.”

Ao final, escreveu: “Não calculas o frio que está fazendo aqui: um frio que parece estar atravessando a carne e que é um martírio vivo. Estou um pouco mais gordo.

Mas não posso dizer nada, em definitivo, sobre o meu estado, antes do exame de cobaia.

Ele já está com 34 dias. Resistirá até os 45?

Que achastes de minhas chapas?”

Indagando em 1979 sobre a data de seu primeiro texto dramático, respondeu: “Foi em 1935. Eu estava em Campos do Jordão, nos “Sanatorinhos Populares”, triste como a casa dos mortos. Era o tempo em que a tuberculose tinha o nome de alvo, nupcial, de peste branca. Cheguei lá num sábado, às cinco horas da tarde.

A tarde caía, invisível, por trás do pinheiros.

E no primeiro momento, conheci a tosse de 15, 16 e 17 anos. Foi num sanatório que eu fiz minha iniciação teatral (...) Certo dia, um doente propôs um espetáculo dramático. Elenco era o que não faltava.

Quanto ao autor, quem seria o autor?

Era jornalista e como tal, dramaturgo. Eu faria, sim, a comédia. E então, escrevi um pequeno ato cômico.

No programa que era datilografado, estava escrito sobre as entradas: com direito a hemoptises... tanto, sem hemoptises, tantos cruzeiros.”

Não é verdadeiro, portanto, que o primeiro texto teatral de Nelson Rodrigues tenha sido “Vestido de Noiva”.

Entrevistado pelo jornalista Lourenço Diaférias, nesse mesmo ano, que também mantinha residência em Campos do Jordão, afirmou: “Se me perguntarem porque fiquei doente, direi apenas: fome.

Ele próprio confessou: “Claro que entendo por fome a soma de todas as privações e de todas as renúncias. Não tinha roupa ou só um terno; não tinha meias ou só um par de meias e um par de sapatos; trabalhava demais e quase não dormia, e, quantas vezes almocei uma média e não jantei nada? Tudo isso era a minha fome e tudo isso foi a minha tuberculose. E mais, eu estava sem auto-estima. Não tinha amor, nenhum amor por mim mesmo!”

A tuberculose tinha então o nome parnasiano, lindo, nupcial, de peste branca. Era abril e havia pneumotórax. Uma moça se debatia numa hemoptise: nunca imaginei que o sangue pudesse ser tão vermelho.”

Depondo a Lourenço Dantas Mota em “História Vivida”, quando já se transformara de repórter em dramaturgo, Nelson Rodrigues contou que foi na altura de 1937 que retornara à “Montanha Magnífica”.

“Já tinha estado em Campos do Jordão, tuberculoso.

As tristezas que sofri lá não se descrevem.

Foram as minhas “Recordações da Casa dos Mortos”.

Quando fiquei tuberculoso estava um esqueleto coberto por um leve revestimento de pele.

Havia um espelho em frente da cama e era tal o horror que tinha da minha própria figura que cobri esse espelho com um lençol para não me ver.

O médico me examinou e determinou que tinha de ir para Campos do Jordão.

Disse que conhecia lá um colega que cuidava dos “Sanatorinhos”.

“Sanatorinhos” era a coisa para a pobreza violenta.

Não me disse isso. Disse apenas que era de graça.

Quando cheguei, o médico me deu serviço rapidamente. Lá, eu era indigente. Não pagava nada, mais fazia pequenos serviços de arrumação, de garçom, etc... com os outros indigentes.

A palavra indigente... Estava no “Globo” onde o pessoal me conhecia e alguns caras achavam que eu tinha talento.

Perguntei ao médico quanto se pagava na outra parte do sanatório e ele me disse que a mensalidade era de 150 mil réis. Respondi que aceitava.

Usaria o dinheiro que estava indo para minha mãe, para ajudar, porque todo mundo vivia num regime de fome...”

Depois acrescentou: “Roberto Marinho pagou os meus vencimentos integrais por três anos, durante todo o tempo em que estive doente.

No caso da tuberculose naquele tempo, era preciso ter sorte e a lesão não ter nenhuma aderência.

A minha tristeza com Campos do Jordão era uma coisa terrível. Não se tratava apenas de mim. Havia o ambiente e os tipos que me cercavam. A tosse, por exemplo.

A partir das duas da manhã, era uma sinfonia de tosses, de todos os tipos e de todos os sons.

E as escarradeiras? Todo mundo tinha. Algumas eram artísticas, prateadas com desenhos em relevo. Logo que cheguei, não sabia dessas coisas e via um sujeito abrir uma espécie de lata muito bonita. Abriu com cuidado e fiquei olhando: “Mas que coisa bonita!”, disse para mim mesmo. Era a escarradeira.

A meu lado dormia um garotinho estrábico, o Tico-Tico. Ele tossia sempre como todo mundo, até que uma noite, após um acesso de tosse, disse de repente: “Sangue”.

Essa era a grande história; quando o sujeito dizia “sangue”, todo mundo saía, porque tinha o que os médicos chamavam de “ligeira piora”.

Isso se o cara não morria no ato. Outra vez, quando já estava numa pensão e não no “Sanatorinhos”, chegou uma moça linda que vinha da feira. Estava tocando uma rumba no rádio.

Parou, teve um espasmo e sangue. Imediatamente a levaram para cima. Morreu no dia seguinte, boiando no próprio sangue e pedindo: “Me salve doutor, me salve”.

Contou Ruy Castro que a tuberculose devastara a saude de Nelson na juventude e na maturidade e só a custo tinha sido posta em sossego, mas legara-lhe para a velhice uma antologia de mazelas. A pior delas era fibrose que lhe dava uma área de ventilação pulmonar menor que a normal e causava uma bronquite crônica.

A sua própria insônia era provocada pela insuficiência respiratória.

Nelson queria usar uma bombinha que era proibida pelo cardiologista. Tinha que emagrecer dez quilos e parar de fumar – conselhos que Nelson não seguiu. A partir de 1974 foi um campo de combate entre a medicina e a morte. Na madrugada de 21 de dezembro de 1980, ele resistira a sete paradas cardíacas, entrando em coma. Tinha 68 anos quando, às 8 da manhã daquele mês e ano, faleceu de trombose e insuficiência cardíaca, respiratória e circulatória.

Dois meses depois de seu sepultamento, Elza cumpriu o seu desejo: fez gravar seu nome ao lado de Nelson, com a inscrição:”Unidos para além da vida e da morte”

Bibliografia:

“Anjo Pornográfico”, de Ruy Castro, Cia. Das Letras, S. Paulo, 1992.
“Folha de São Paulo”, de 28 de outubro de 1992.
“Revista Manchete”, de 27 de janeiro de 1979.
“Folhetim da Folha de São Paulo”, de 5 de março de 1979.
“História Vivida”, de Lourenço Dantas Mota, O Estado de São Paulo, vol I, de 1981.
“O Reacionário – Memórias e Confissões” de Nelson Rodrigues, Agir, Rio de Janeiro, 2008.
“A Montanha Magnífica – Memória Sentimental de Campos do Jordão”, de Pedro Paulo Filho, O Recado Editora, São Paulo, vol II, 1997.

Dr. Pedro Paulo Filho